"A amizade, entre um homem e uma mulher é (o leitor que
escolha) um bico-de-obra; uma coisa muito linda; ainda mais complicado que o
amor; absolutamente impossível; amizade da parte da mulher e astúcia da parte
do homem; astúcia da parte da mulher com amizade da parte do homem; só possível
se a mulher for forte e feia; impossível se o homem for minimamente atraente;
receita certa para a desgraça; prelúdio certo para o romance; indescritível;
inenarrável; sempre desejável; o que Deus quiser; o diabo.
O leitor que não tenha escolhido todas as hipóteses não percebe nada disto.
Quanto à leitora, o mais provável é ter ficado a pensar , já que as mulheres
portuguesas, por dura experiência, percebem mais destas coisas que os homens.
Em Portugal, a amizade entre pessoas de sexos opostos (ou sexualidades opostas)
é sempre muito problemática, dada a chamada «cultura vigente». A cultura
vigente é dominada pelo conhecido Factor SPAC, que influencia todas as relações
entre homens e mulheres. O factor SPAC (que significa, em repreensível
português, «Salto Para A Cueca») está sempre presente.
É a mulher que repara que o seu grande amigo esta disposto a discutir todos os
problemas dela com a maior paciência e compreensão, mas que começa a arroxar e
a esverdear, a puxar o lustro à cadeira com o rabo, sempre que ela lhe revela
estar muito feliz com um novo amor. Ou (pior ainda) com um velho. Se o
amigalhaço suporta a miséria mais camiliana com um sorriso, mas não aguenta a
mínima menção de alegria, se ajuda muito nos dissabores e desamores mas empata
ainda mais nos sabores e amores, levanta-se no espírito da mulher,
legitimamente ou não, o factor SPAC. E ela interroga-se: «Se calhar este também
me quer Saltar Para A Cueca?» E se calhar quer. Se isto é ou não um crime, é o
que se vai ver.
O problema não é exclusivo das mulheres, também os homens podem atribuir a
certos comportamentos femininos uma medida do factor SPAC (sobretudo o tipo de
homem que pensa em Catherine Spaak, a esquecível actriz de cinema, antes de
pensar em Paul-Henri Spaak, o memorável espírito impulsionador da CEE). O homem
português tende a distinguir mais claramente entre Amigos e Amigas. Os Amigos
são para copos e conversas escandalosas de bola e de «boas». E são também, nos
casos extremos, para Sempre. As Amigas são para chavenas de chá e conversas
profundas sobre a natureza do Inverno. Isto sem falar nos típicos caraméis para
quem amigas é: todas as pessoas do sexo oposto com número de telefone, olhos
bonitos e uma possibilidade mínima de 1 por cento na tabela SPAC.
A amizade entre homens e mulheres pode chamar-se isenta de factor SPAC quando
se fala livremente, como os amigos falam, de terceiros amores. Se uma rapariga
se sente a vontade para chegar ao pé de um rapaz e dizer pá! Sabes o que me
aconteceu? Apaixonei-me! Não é porreiro? e se o rapaz acha que sim, que é
bastante porreiro, então pode dizer-se que o factor SPAC está de ferias. Claro
que haverá sempre alguns ligeiros ciúmes «Afinal já não posso ir contigo à
festa — vou com a Gisela / o Giselo ao concerto, desculpa lá». Mas nada que
ponha em perigo a amizade.
Uma das maneiras tradicionais de atenuar o factor SPAC é S mesmo PAC. «Pronto,
agora que já estamos despachados neste departamento diz a mulher para o homem,
atirando-lhe o maço de cigarros [está bem, pronto, de SG Pack], — vamos lá a
ver se ficamos amigos». Os ex-amantes, depois do grande holocausto, podem dar
bons amigos (desde que não se tenham amado de mais e dado cabo dos dois
coraçãozinhos logo à partida). No cenário pós-SPAC (reza a teoria do Cacaracá
conforme se expõe nos cafés do Porto e Lisboa), a curiosidade sexual é
imediatamente saciada e a amizade pode florescer, desimpedida das ervas
daninhas do desejo. E caso o salto seja em altura, homem e mulher,
presumivelmente, decidem continuar amantes. Esta teoria (do Machao-Latino, ou
«M-L») não presta, porque supõe que o SPAC é uma coisa simples e toda a gente
sabe que, na cama, fazer amor é uma coisa, fazer só por fazer e outra, mas
fazer amizade não é nem uma coisa nem outra. Mas a teoria oposta (da
Machona-Lusitana, «M-L» à mesma) também não serve. Imaginando que o factor SPAC
nunca existe entre um homem e uma mulher que sejam verdadeiros amigos, caem no
simplismo contrário. Tal como o homem que pensa «Que chatice! Isto nunca mais
passa da amizade para o que interessa!), a mulher que pergunta: «Será que este
é mesmo meu amigo ou estará a fazer-se ao piso?» está a cometer o mesmo erro. É
como perguntar acerca de um pastel de nata se é mesmo feito de farinha ou só de
nata. Portugal não é só Lisboa, mas Lisboa também é Portugal (e não é pouco).
Se fosse como os M-L machos e fêmeas diziam, então os homens só podiam ter
amigas muito feias (o que é limitativo) e as mulheres só podiam ter amigos
muito desinteressados (o que seria muito desinteressante). A própria ideia de
uma amizade inocente põe a hipótese de uma amizade culpada. Ora ninguém pode
ter culpa de ser amigo doutra pessoa. A verdade é outra. Como as mulheres são
diferentes dos homens (por exemplo, os segundos sentem-se mais obrigados a tentar
SPAC das primeiras do que as primeiras PAC dos segundos), é natural que essa
diferença se faça sentir nas relações de amizade. Quando não existe a mínima
atracção de parte a parte, tudo bem. Mas quando existe, também não é
mau. Alias, se houver uma gestão elegante dos vários frissons envolvidos,
pode até ser melhor.
Vejamos. Em geral, as mulheres portuguesas gostam mais de ter amigos do que ter
amigas. 0 Problema é que os homens também. Isto leva a um desequilíbrio
considerável na oferta e na procura de amizades. Posto de maneira brutal, não
faltam mulheres dispostas a serem amigas de homens. Os homens é que faltam
mais. E aproveitam-se disso.
Por outro lado, as mulheres, regra geral, tornam-se amigas dos homens pondo a
raridade e o valor da amizade acima da maior vulgaridade do SPAC. Tanto mais
que o homem português não põe facilmente a hipótese de uma mulher se tornar
amiga dele para lhe SPAC. O raciocínio típico do Homo lusitanus é
simples: «0h... se ela me quisesse SPAC escusava de estar com tanto trabalho!»
Em Portugal é assim. O homem acha que, no que toca a SPAC, é ele que tem de
trabalhar.
E a mulher também conseguiu convencer o homem que é isso que ela acha também.
Logo, o trabalho de amizade de uma mulher nunca é levado a mal pelo homem (é
levado por outras mulheres; mas essa é outra história). Em contrapartida, o
trabalho do homem é sempre posto em causa. E muito bem posto, aliás. Se ele
propõe «Talvez fosse melhor ficarmos aqui em casa hoje à noite, não ouviste o
boletim meteorológico?», ela faz muito bem em pensar: « Está bem, filho, já
vais ver a imagem do satélite...». Mas faz mal em duvidar da amizade dele só
por causa disso. A verdade é que o amigo talvez gostasse de lhe SPAC, não lhe
cairia mal, não senhor, mas pronto, se não puder ser, ninguém morre por causa
disso, ficamos amigos à mesma. Seja por natureza, seja por formação, o homem
tem sempre de manter presente a possibilidade de SPAC da mulher. Pode ser de
maneira Roskoff (tentando abertamente) ou pode ser de maneira Rachmaninoff (pensando,
pianinho, na eventualidade de ficarem só os dois numa ilha deserta depois de
uma bomba atómica ter destruído toda a humanidade), mas lá ter de ser, tem.
Resumindo: para as mulheres, como amigas de homens, a «amizade, amizade,amores
à parte», enquanto para os homens é mais «amizade, amizade, e uns amores a
parte, se puder ser, se faz favor, se não também não faz mal». Na verdade, a
amizade e o factor SPAC não são mutuamente exclusivos. Pode ser-se muitíssimo
amigo de alguém que se deseje muito, pouco, muito pouco ou nada. O factor SPAC
tem o mesmo peso na amizade que o Max Factor no amor. Nem mais."
Acho uma delícia este texto...já lá vão uns aninhos desde que o li pela primeira vez....