"SENHORAS E SENHORES: O PRODUTO MAIS DIABÓLICO DA HUMANIDADE
O que mais dói não é –
desengana-te – a infelicidade. A infelicidade dói. Magoa. Martiriza. É intensa;
faz gritar, sofrer, saltar, chorar. Mas a infelicidade não é o que mais dói. A
infelicidade é infeliz – mas não é o que mais dói.
O que mais dói é a
subfelicidade. A felicidade mais ou menos, a felicidade que não se faz
felicidade, que fica sempre a meio de se ser. A quase felicidade. A
subfelicidade não magoa – vai magoando; a subfelicidade não martiriza – vai
martirizando. Não é intensa – mas é imensa; faz gritar, sofrer, saltar, chorar
– mas em silêncio, em surdina, em anonimato. Como se não fosse. Mas é: a
subfelicidade é. A subfelicidade faz-te ficar refém do que tens – mas nem assim
te impede de te sentires apeado do que não tens e gostarias de ter. Do que está
ali, sempre ali, sempre à mão de semear – e que, mesmo assim, nunca consegues
tocar. A subfelicidade é o piso -1 da felicidade. E não há elevador algum que
te leve a subir de piso. Tens de ser tu a pegar nas tuas perninhas e a subir as
escadas. Anda daí.
Sair da subfelicidade
é um drama. Um pesadelo. Sair da subfelicidade é mais difícil do que sair da
infelicidade. Para sair da infelicidade, toda a gente sabe – tu mesmo o sabes:
tens de tomar medidas drásticas. Medidas radicais. Porque a infelicidade é,
também ela, radical. Mas sair da subfelicidade é uma batalha interior muito
mais dolorosa. Desde logo, porque não sabes se queres, mesmo, sair da
subfelicidade. Porque é na subfelicidade que consegues ter a certeza de que
evitas a desilusão – terás, no máximo, a subdesilusão; porque é na
subfelicidade que consegues ter a certeza de que evitas a perda – terás, no
máximo, a subperda. Estás a ficar perdido com o que te digo?
A subfelicidade é o
produto mais diabólico que a humanidade criou. Formatado pela consciência, o
homem assimilou um conceito que, na verdade, não existe: o da felicidade
segura. Espero que estejas bem seguro nessa cadeira quando leres o que aí vem
no próximo parágrafo.
A felicidade segura
não existe. A felicidade segura é segura, sim – mas não é felicidade. A
felicidade pacífica é pacífica, sim – mas não é felicidade. A felicidade,
quando é felicidade, assolapa, euforiza, arrebata. E não deixa respirar, e não
deixa sequer pensar. A felicidade, quando é felicidade, é só felicidade. E tudo
o que existe, quando existe felicidade, é a felicidade. Só ela e tu. Ela em ti.
Ela em todo o tu. A felicidade, para ser felicidade, não tem estratos, não tem
razão. Ou é ou não é. A felicidade é animal, de facto – mas é ainda mais
demencial. Deixa-te louco de felicidade, maluco de alegria, passado dos cornos.
Só quando estás dentro da felicidade é que estás fora de ti. Liberto do corpo,
da matéria, da sensação – e imerso naquela indizível comunhão. Tu e a
felicidade. Já a sentiste, não?
Não há como dizer de
outra maneira: se estás acomodado à subfelicidade, se tens medo de ser feliz e
preferes a certeza de seres subfeliz: és um triste de todo o tamanho. A
subfelicidade é uma tristeza. Uma tristeza de hábitos, de rotinas, de sorrisos
– uma tristeza que inibe a surpresa, o imprevisível, a gargalhada. Uma tristeza
que te faz refém do que fazes e te impede de te seres o que és. Olha em redor:
a toda a volta há pessoas subfelizes, pessoas que dizem “vai-se andando”,
pessoas que dizem “tem de ser”, pessoas que dizem “eu até gosto dele”, pessoas
que dizem “sou feliz” com os olhos cheios de “queria ser feliz”, pessoas que
dizem “é a vida”. Mas não é. A vida não é a quase felicidade. A vida não é a subfelicidade.
E, se é a primeira vez que vês isso, fica entendido o que sentes. Ou
subentendido, pelo menos."
by Pedro Chagas Freitas
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